Por que os brasileiros odeiam o Pelé?

Sensacional texto do Bruno Hoffman

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Se alguém te perguntar o que você acha sobre o Pelé, o que você responderia de bate-pronto? O mais provável é que diga algo como “ele é um bosta”, “que cara idiota” ou “depende, o Pelé ou o Edson? Porque gosto do Pelé mas odeio o Edson”. Essas sentenças, com variações sutis, é o que mais se ouve da boca geral ao falar do brasileiro mais conhecido do mundo, e com requintes de ódio. Por que odiamos o Pelé, ou o Edson, ou ambos?

O principal argumento costuma ser “ele fala muita besteira” ou que “calado é um poeta”. Falar mal do Pelé virou algo óbvio e automático. Boa parte dos haters do Rei mal sabe porque o detesta. Apenas detesta. É tão óbvio odiar o Pelé como é amar, sei lá, o Ayrton Senna ou o Gustavo Kuerten. E não me lembro de nenhuma declaração profunda sobre a sociedade de nenhum dos dois esportistas. Já Pelé é vítima de um descomunal sentimento negativo, de forma injusta e inexplicável.

Vamos lá: Pelé é um mito só por ter existido, abrindo ou não a boca. É o homem que inventou o Brasil para o mundo. Um moleque mirrado de 17 anos que distribuiu chapéus em terras estrangeiras e fez reis de verdade se curvar a um adolescente. Não é preciso entrar em detalhes de sua carreira incontestável. A primeira crônica de Nelson Rodrigues sobre o então quase desconhecido jogador dizia “Pelé leva sobre os demais jogadores uma vantagem considerável: — a de se sentir rei, da cabeça aos pés”. Mas a aversão é tão grande que há até pessoas que o diminuem como jogador.

Há quem diga que era muito mais fácil jogar antigamente. Que só fez 1.284 gols porque os marcadores davam bastante espaço. Me responda, caro leitor: qual outro jogador da época estufou as redes metade das vezes? O português Eusébio e o hispano-húngaro Puskas – os dois maiores goleadores europeus dos anos 1950/1960 – fizeram, juntos, 1207 gols. Pelé estava descomunalmente à frente de todos os seus contemporâneos.

A maioria dos detratores do Rei, porém, como dito acima, diz que gosta do jogador mas odeia “a pessoa Edson”. Um dos motivos para isso é o absurdo policiamento que há sobre suas declarações. Ninguém pergunta ao Zico, ao Gérson ou ao Rivellino sobre questões políticas ou sociais. Mas ao Pelé sempre há um repórter (muitas vezes com a intenção polemiquista) para saber o que está achando dos protestos pelo País, da pobreza na África ou do caso Aranha. Ele sempre cai nessa armadilha. E quase sempre se dá mal.

Eu o entrevistei há cinco anos. Foi uma das pessoas mais doces que conversei na vida. E não cacei polêmicas. Não por mau jornalismo. Pelo contrário, por fazer jornalismo corretamente. Não há porque buscar polêmica à toa com ele. O não reconhecimento da filha, claro, é algo que não dá para defendê-lo e tem relevância jornalística. Mas nem de longe é essa a razão da antipatia com a qual ele é recebido pelo povo brasileiro. O Garrincha teve um bocado de filho fora do casamento e é adorado. É substancialmente por “calado ser um poeta”.

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Porém, repare: há pouquíssimas opiniões públicas que ele tenha feito com frieza, calculadas, para prejudicar alguém ou para ter algum tipo de vantagem escusa. Ele fala com o coração. É um senhor de 74 anos, meio conservador, um tanto ingênuo, que faz questão de dizer o que pensa quando é contestado. Não se deve exigir intelectualidade profunda ou nobreza dele. Não se deve exigir nobreza de ninguém. Como disse o jornalista Antero Greco, “Lamento certas colocações dele, mas por que não o deixam em paz também? Ele é verdadeiramente autêntico. Venero o mito Pelé”.

Um  ano antes da Copa, ele gravou um vídeo conclamando o povo  a não confundir os protestos pelo país com futebol, que deveríamos apoiar a seleção. É óbvio que era uma declaração que seria mal recebida. Qualquer assessor de imprensa o proibiria de falar aquelas palavras. Mas Pelé é autêntico e sincero – quase ingênuo, porém não mau caráter – e falou o que achou que era o correto. Houve uma onda de histeria contra a declaração. Bastou, porém, o primeiro quique na bola no jogo entre Brasil e Croácia para o país obedecê-lo e passar um mês apaixonado pela seleção e  entoando música em sua exaltação (“mil gol, mil gols, mil gols, mil gols / Só o Pelé, só o Pelé…”). Pena que era apenas para debochar do Maradona.

Outro episódio recente é o caso de racismo contra o goleiro Aranha. Pelé declarou que “quanto mais se falar, mas vai ter racismo”, e que o certo seria o goleiro deixar o assunto de lado. É evidente que Pelé estava errado. Só não podemos esquecer duas coisa. A primeira é que ele nasceu em 1940 e que na sua juventude era assim que um negro – com raríssimas exceções – enfrentava o racismo. Não sei se qualquer outro jogador negro da mesma idade teria uma opinião diferente. Os brancos, então, muito menos. Mas ninguém perguntou a eles. A outra é que, nunca esqueça, Pelé não é o algoz do racismo. É uma vítima dele.

Seu outro defeito para o senso-comum é que ele sempre soube fazer bons contratos e é um cara rico considerado alienado. Parece que o Brasil não suporta um cara negro e pobre subir na vida e ainda com certa arrogância, se auto-proclamando rei. A carreira do Wilson Simonal foi destruída pelo mesmo motivo. O Mano Brown já foi acusado de ser hipócrita por ter comprado um Audi, mesmo sendo um dos artistas de música popular mais importantes do Brasil. Por outro lado, Adriano é chamado de irresponsável por querer morar na Vila Cruzeiro. O Brasil tem problemas para lidar com negros que ascenderam na vida. Sempre terão que provar que são mais nobres e mais merecedores do que conquistaram em relação aos brancos. A sociedade ou impõe que o sujeito seja perfeito como Nelson Mandela ou ao menos que não dê opinião sobre muita coisa, como Milton Nascimento.

Tom Jobim deu a definição exata da sensação do povo brasileiro com o maior jogador de futebol de todos os tempos: “O povo odeia o Pelé porque deu certo e ama o Garrincha porque morreu na miséria. O Brasil precisa aprender a amar o Pelé”. Nós precisamos aprender a amar o Pelé. Ou ao menos não ter ódio patológico de quem não fez mal pra quase ninguém.

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